Carta a Cecília
Sumário
Para Cecília,
que se esconde no rosto de Cristo
Ad Caeciliam, in vultum Christi abditam
- I.O véu20 · IV
- II.Algo em comum21 · IV
- III.O desvio22 · IV
- IV.O silêncio23 · IV
- V.O reencontro24 · IV
- VI.O que eu amo em você27 · IV
- VII.A bênção02 · V
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Servindo ao Senhor · Você me apareceu
E na simplicidade · Tudo isso se deu
capítulo primeiro
O véu
14 · 18 · julho · 2024
Servindo ao Senhor · Você me apareceu
— do teu poemaFoi num catorze de julho que eu te vi pela primeira vez, Ceci. Festa junina do Carmelo, o pessoal entrando e saindo o tempo todo. Eu entrei pra comprar um terço. Você estava ali, na lojinha, atendendo, contando troco. Eu só olhei. Não disse nada.
Dias depois eu te vi numa missa, na São Sebastião — e agora você estava de véu. A missa acabou, ainda faltava tempo pro alpha começar (coisa que entediava nós dois), e eu te achei esperando teus pais pra ir embora. Fui tentar puxar assunto. A primeira coisa que me veio na cabeça foi isso mesmo — você de véu na missa. "Por que você usa véu?" Eu não queria uma aula; queria te ver defender uma coisa pequena.
Você não defendeu. Respondeu curto ali, eu fui embora sem entender direito. À noite, no Instagram, veio a mensagem que eu nunca mais apaguei — que o véu era tradição da Igreja e, além disso, sacramental: um jeito de glorificar mais ao nosso bom Deus, se escondendo na imitação da Santíssima Virgem.
Aquilo começou alguma coisa em mim. Não era a resposta de uma pergunta — era o endereço pra onde você olhava. E eu, sem perceber, entrei no caminho que esse olhar desenha.
Dez dias depois, quando a gente mal tinha começado a se falar, você me mandou um PDF sobre a espiritualidade do frade Lourenço da Ressurreição. Eu abri, li. Você não tava me dando um texto; tava me apontando o endereço de onde olhava. E eu fui.
A história começa aí — no véu que você pôs pra glorificar mais, e que, sem querer, me deixou ver.
capítulo segundo
Algo em comum
agosto · 2024
No santo Carmelo · A amizade brotou
— do teu poemaA primeira coisa que eu te mandei no WhatsApp, antes de agosto começar, foi uma música minha ainda em construção — só violão, eu não canto. "Não, não sou cantando, só tocando", avisei sem graça. Foi assim que eu escolhi chegar: tocando. Agosto chegou logo depois, e a gente começou a conversar todo dia, Ceci. Não lembro quem puxou primeiro. Acho que não puxou ninguém — simplesmente foi. Em duas semanas eu tinha desinstalado o Instagram, acordava cedo pra rezar o terço antes de você chegar na escola, conversava com o teu anjo quando você sumia por meia hora. Eu te mandava "Boa aula, viu?" de manhã e "Boa noite, com Deus, viu?" à noite — vírgula em vez de ponto, o modo do teu cuidado entrando no meu vocabulário.
Num desses dias você me soltou que ia ser carmelita, que tava com vontade de gritar pro mundo todo saber mas não podia — porque se quebrasse o frasco o perfume estragaria. Você contava como se contar já fosse quebrar um pouquinho. Eu guardei.
Você começou a me mandar áudio longo nesses dias. Me contava que queria ser eremita, que sonhava em ser igual o frade Lourenço — só cuidar da cozinha e deixar Deus entrar ali. Me falou que os amigos tinham ido se afastando aos poucos e que, no vazio que ficou, você tinha aprendido a rezar. Eu ia escutando e ia entendendo, sem pensar muito, que tudo em você apontava pra um lugar só.
Num áudio tu me contou, meio tímida, que queria aprender flauta transversal pra tocar no Carmelo — tinha visto uma carmelita tocando num vídeo e se inspirou. Eu te respondi na hora que queria tocar contigo: você na flauta, eu no violão. Verde, pedi. Pra ficar melhor. A gente nunca tocou junto. Não importa. Imaginar já era oração.
Eu também vi algo em mim. Numa dessas noites de agosto eu te escrevi que tinha me aproximado muito de Deus depois que comecei a conversar com você; que não fazia o menor sentido a nossa amizade, mas que eu já entendia. Foi a primeira vez que eu disse em voz alta o que já tinha percebido fazia semanas.
Você ia ser a primeira do Stella Maris — a formação de mulheres que eu estava sonhando, lado oposto do Virgo Fidelis. Eu falava disso e o Miguel ria de eu querer achar três moças iguais a você. Você me cortava dizendo que ia atrapalhar meu vocacional. E me contou, antes de eu saber que não devia saber, o nome que você tomaria lá dentro. Ficou entre nós dois.
Numa manhã desse mesmo agosto, rindo, você me disse que já estava com 99,8% de certeza — que faltava só entrar pra fechar os cem. Falou das amigas, disse que ia levar elas pro Carmelo também. Eu ri e fui entendendo ali que a tua entrada não era uma porta que ainda ia abrir. Era uma que você já tinha a chave.
Os dois já sabíamos pra onde ia. E continuamos conversando.
capítulo terceiro
O desvio
setembro · 2024
Ó culpa tão feliz que há merecido
No meio de setembro eu escolhi outra pessoa, Ceci. Não vou gastar palavras explicando — a madre já tinha dito que era lícito entre nós, e eu mesmo, de dentro, peguei o caminho mais rápido. Muita coisa difícil depois eu consigo olhar pra trás e puxar deste dia. Não é acusação: é só o mapa que eu vejo agora.
Foram quatro meses. Eu mesmo encerrei quando entendi que não daria em casamento — e só quando eu olhei pra fora é que você abriu a porta. Deu descompasso dos dois lados. O tempo de Deus, o meu atraso, o teu avanço: tudo no mesmo relógio, mas cada um na hora errada do outro.
Eu pedi desculpa várias vezes. Pelo chat, em voz, em silêncio. Pedi ontem diante de Nossa Senhora de Aparecida. Continuo pedindo. Em março, cansada de me ver pedindo, você começou a me responder com um refrão só: culpa sua, culpa sua, culpa sua. Eu lia, apanhava, calava. Até que numa madrugada de abril, depois da Vigília Pascal, você mudou a frase:
Ó culpa tão feliz que há merecido.
Eu reconheci na hora — é do Exsultet, o hino que a Igreja canta no escuro da Vigília Pascal, quando a vela grande é acesa:
O felix culpa, quae talem ac tantum meruit habere Redemptorem!
Ó feliz culpa, que mereceu ter tal e tão grande Redentor!
Você pegou a minha culpa e a chamou de feliz. Porque Deus tirou dela o caminho que te levou pro Carmelo. Eu não estou em paz com o erro. Estou em paz com o que Ele fez com ele.
E quero registrar uma coisa aqui, no meio deste capítulo difícil, porque pertence a ele. Três meses depois do desvio, no meu aniversário de dezembro, mesmo me sabendo com outra, você me entregou um poema. Feito à mão: flores secas coladas no papel, vinhas à caneta, a tua letra. Está inteiro no apêndice deste livro. Você escreveu o começo da história antes de mim — e insistiu em dar mesmo quando a minha mão já tinha recusado. Eu engolia em seco lendo, e engulo ainda hoje.
Eu mesmo te mandei uma coisa nesses dias, de repente, sem me policiar:
Se eu pudesse resumir meu temperamento, seria: inconstância nas coisas que levam ao céu.
Essa é a verdade sobre mim. Você me mostrou na cara, sem precisar falar, só existindo. A constância é o meu trabalho. O Exsultet é o teu presente.
capítulo quarto
O silêncio
setembro · 2024 — carnaval · 2026
Nosso Senhor não permitiu para podermos mortificar mais né
Entre o fim daquele agosto e o Carnaval de 2026 a gente se afastou, se reaproximou, se afastou de novo, e outra vez. Foram três silêncios, cada um maior que o outro — mais de um ano de saudade calada, num total de vinte meses.
Eu mandava uma mensagem aqui e ali só dizendo saudade. Você respondia curto, do jeito que você sabe. Numa madrugada de setembro, dessas que a gente escreve coisa que de dia não escreveria, eu te mandei que era bem mais próximo de Deus quando gostava de você, e que tudo começou a desandar depois que me afastei. Você não respondeu de pronto. Mas eu sei que leu.
Você também esperava, do seu lado. O Carmelo de Brasília marcou a sua entrada, desmarcou, adiou, marcou de novo. Padre Ricardo foi embora da paróquia. A vaga ficou incerta. E depois de tudo, você foi encontrar a experiência em Trindade, não em Brasília. Naquele ano você me escreveu que confiava na vontade do Senhor mas que te angustiava esperar, esperar, esperar — cada adiamento doendo sem motivo claro. E mesmo assim, dizia, ia se adequar ao tempo de Deus. E se adequou.
Em agosto de 2025, depois de muito tempo parado, você me escreveu uma frase que eu levei quase dois anos pra entender:
Nosso Senhor não permitiu para podermos mortificar mais né.
Eu lia aquilo e entendia que o silêncio não foi meu erro, nem seu, nem do padre Ricardo. Era Deus esticando os dois, cada um no seu canto, sem nos deixar ir embora de vez.
Nesses meses eu saí de casa, fui morar sozinho em Cristalina, tentei lidar com o que eu chamei naquela época de imensidão de Cecília. Num áudio desses eu te disse, meio rindo meio não, que tinha chegado a segunda morada das Moradas de Santa Teresa, levei uma bicuda da santa, e voltei pra morada -2 — como se fosse possível um número negativo. Era piada. Também era diagnóstico.
Eu repetia pra quem quisesse ouvir, naquele tempo, uma frase que eu tinha pegado num livro sobre mortificação: só existe amor verdadeiro no sofrimento. Não sei se eu tava entendendo ou só aguentando. Era o único jeito que eu tinha de encaixar o que doía sem mentir que não doía.
Você ficava aí, rezando por mim. Eu sabia. Até hoje eu sei.
respiro
Falei pro Senhor que se Ele quisesse que a gente conversasse que me mostrasse isso. E daí vem o querido e diz que a gente precisa conversar. — no ônibus para Brazlândia
capítulo quinto
O reencontro
carnaval · 2026 · brazlândia
E falei pro Senhor
se Ele quisesse que a gente conversasse
Eu fui servir num retiro de Carnaval, Ceci. Dezessete de fevereiro, Brazlândia. Eu não sabia que você ia estar. Você não sabia que eu ia estar. Na primeira noite eu te vi do outro lado do refeitório — vinte meses depois — e, quando ficamos sozinhos pra conversar, eu te mandei que sabia que a gente não podia conversar, mas que era muito bom estar contigo; que eu tinha esquecido como era. E disse que te amava.
Dois dias depois você me contou o que tinha rezado dentro do ônibus antes de chegar — aquela oração que abre este respiro, o teste de Gideão que você fez comigo sem me dizer. Eu não tinha como saber. Me chamaram pra servir, cheguei lá, te vi. Deus tinha escrito tudo do Seu jeito, como sempre faz.
Na mesma conversa você foi direta. Me disse que todo o discernimento que tinha feito ao longo daquele tempo não te permitia ter sentimentos além de amizade em relação a mim — mesmo com algum receio de como poderia ser, ao me rever. Eu escutei e não tentei empurrar.
Desde aquele dia a gente não parou mais de se falar. Eu passava em Brazlândia toda semana. Passava na tua casa. Conheci tua mãe, teu pai. Virei amigo dos teus.
Uns dias depois do retiro, ainda arrumando dentro de mim o que tinha acabado de voltar, eu te escrevi a coisa mais simples que eu sei te dizer. Que você é régua pra eu decidir algumas coisas na minha vida. Que eu quero ir pro céu, mano. Que você me faz sentir que tô no caminho certo. Era verdade naquele dia. É verdade hoje, na véspera. É a única régua que eu sei usar sem mentir.
O reencontro não foi pra desfazer nada. Foi pra Deus me deixar ver, antes de você entrar, o tamanho do que Ele tinha preparado. A gente tá aqui até hoje por causa da tua oração no ônibus.
respiro · entre capítulos
A casa de Brazlândia
carnaval · 2026 em diante
Pelos frutos se conhece a árvore.
— mt 7, 20Tem uma parte do reencontro que eu resumi em uma frase no capítulo anterior — "conheci tua mãe, teu pai, virei amigo dos teus" — e que merece parágrafo próprio, Ceci. Porque conhecer a tua casa foi coisa grande.
O teu pai. Eu olho pros filhos que ele criou e entendo o homem. Você, o João, a Julia e a Marília — cada um do seu jeito, mas os quatro olhando pro mesmo lado. Não dá pra fingir isso em casa: ou o pai vive o que fala, ou os filhos saem apontando pra outro lugar. Eu olho pra vocês quatro e vejo o que eu quero um dia — se Deus quiser me dar filhos, quero que saiam como vocês saíram.
Ele me deu uma coroinha do Menino Jesus, aquele terço de dez contas. Você me olhou meio de banda quando soube — "ele não é muito disso", você disse. Pois é. Foi justamente por isso que pesou. Ele não me deu algo que ele mesmo usa; ele me deu algo que ele escolheu pra mim. Eu guardei. Ando com ela, como ando com o Carlinho.
A tua mãe tem um jeito de prestar atenção que eu não sei explicar direito. Eu falo uma coisa boba qualquer e ela escuta como se fosse a única coisa sendo dita ali. Pergunta depois, lembra. Em Aparecida, ela foi contigo e foi comigo — rezou com você, e eu vi. Também conversou comigo no caminho como quem já decidiu me receber em casa, sem precisar me examinar muito.
O João vai voar, Ceci. Ele já voa, só não sabe o tamanho das asas ainda. Toda conversa com ele eu saio sabendo mais do que eu entrei. Eu fico feliz de ele ter me deixado chegar perto — imagino que de você ele já tenha visto muito, e achar espaço pra mais um amigo dentro da casa não devia ser óbvio.
E a Julia. Sanguínea que nem eu, Ceci. Foi fácil. A gente se reconhece sem precisar explicar — você sabe do que eu tô falando, você que passou a infância inteira entre nós dois tipos. Eu rio com ela de um jeito que eu não rio com muita gente.
E a Marília, a caçula. Essa eu nem consegui parar direito ainda, Ceci — ela tem energia de criança-criança, passa voando pela sala, sai correndo antes de eu ter tempo de encher o saco dela. Mas eu imagino que, no dia que eu pegar, ela sai rindo. Aposto nisso.
Eu te digo isso porque você vai entrar no Carmelo sabendo que a dor maior é deixar os irmãos — você mesma escreveu isso dia dezenove. Então quero que você entre sabendo outra coisa também: eu não vou sumir dessa casa quando você fechar a porta. Vou continuar passando em Brazlândia. Vou continuar conversando com o teu pai. Vou continuar sendo amigo do João, amigo da Julia, bem recebido pela tua mãe. Eles não perdem uma filha e ganham um silêncio — eles perdem uma filha no sentido do Carmelo, e ficam com mais um que se importa com eles por causa dela.
Isso não é promessa que eu faço pra te prender em nada, Ceci. É promessa que eu faço porque passou a ser natural. Eu gosto deles. Eles são família tua e ficaram sendo casa minha também. Tudo aconteceu junto, providencial, e não vou soltar só porque você foi pra dentro.
capítulo sexto
O que eu amo em você
por partes, pra não virar lista
E puro coração · É que me faz amar-lhe
— do teu poemaEu tentei fazer uma lista e virou piegas. Então vou sem ordem, Ceci — e começo pelo que você mesma me disse no poema.
Para onde você olha. Você busca coisas do alto, em tudo, todo dia. Teve na mão as vidas possíveis — me disse isso no retiro, me disse que podia escolher — e que, mesmo assim, o teu coração batia pelo Carmelo. Eu podia, na vida que levo, ter quase qualquer moça. Nenhuma olha pra onde você olha. Esse é o ponto de partida de todo o resto.
O amor pela Eucaristia. Você um dia me escreveu que a única pessoa a quem você demonstra tudo, tudo, é Jesus e Nossa Senhora. Eu vi você na missa muitas vezes e entendi. Você se esconde — como aquele sacramental do véu lá atrás — pra glorificar mais.
Os olhos grandes e claros. Dispensa comentário.
E tem uma coisa que eu só sei descrever por contradição: você me faz sentir o cara mais indigno do mundo e o mais acolhido também, no mesmo gesto. Quando li o teu poema e vi "Quão indigna sou de ter esse presente", entendi que isso não é meu: é mútuo. A gente tem o mesmo vocabulário da graça, e foi o que fez a amizade caber tão rápido.
E tem os momentos em que a gente adivinha — fala junto, ou eu respondo antes de você terminar. Não sei nomear. Acho que é o que os carmelitas chamam de amizade santa.
continua
capítulo VI · continuação
Tem mais, Ceci. A relíquia de Carlo Acutis que você me deu em algum dos encontros — não lembro o dia, lembro que coloquei na mão e nunca mais saí de perto. Eu ando com ela. Você deu com a leveza toda: "Carlinho", você chama — como se estivesse me dando um amigo, não um objeto de veneração.
Você ia ser a primeira do Stella Maris se tivesse ficado. Talvez você tivesse sido. Talvez fosse meu sonho que a Cecília da Sagrada Face fosse minha esposa. Já é outro.
E por fim, o que você fez por Deus passando por mim. Você me escreveu, naquele agosto em que a gente voltou a se esbarrar, que era grata a Deus por Ele ter permitido a minha ajuda na tua vida; que eu tinha te ensinado coisas boas, como virar amiga do teu anjo da guarda. Me disse que, uns dias antes, tinha feito sete pessoas terminarem uma confissão pedindo a ele. Eu li, engoli, reli.
Você é ministra sem batina, Ceci. Você converte do jeito que Deus inventou você pra converter — que é sendo você, em silêncio, rezando. O Carmelo é só o endereço onde essa ministeria vai passar a caber inteira.
A tua alegria. Uma vez, ainda em 2024, você me escreveu que com a tua cruz era mais feliz. Eu li, reli, me calei. É o que eu não aprendi a dizer ainda — você já vivia. Na semana de embarcar, tu me mandou que transbordava de alegria por finalmente estar perto de ir. Não é entrega heroica. É noiva feliz. Eu carrego isso como ordem: não ser menos alegre do que você está indo.
A tua firmeza. Num daqueles agostos tu me perguntou se eu tava indo na missa por causa das pessoas ou por causa de Cristo. Eu apanhei. Era exatamente o que eu precisava ouvir — e eu não tinha coragem de me dizer sozinho. Corrige sem azedume, diz o que precisa ser dito, e deixa a fala agir. É o jeito Teresa.
Se eu pudesse escolher uma coisa pra levar da nossa amizade pro resto da vida, seria esse olhar. Ele não precisa de mim perto. Mas me faz querer ser melhor mesmo longe.
capítulo sétimo · último
A bênção
02 · v · 2026 · véspera
Eu sou Teresa, de Jesus.
Eu sou Jesus, de Teresa.
Amanhã você entra no Carmelo, Ceci. Aqui é a véspera.
Os treze dias passaram. A viagem a Aparecida passou. Eu fui ali pra ficar com Deus e pra me despedir de você — foi o que te disse no fim de março. A tua mãe também foi. Você viu ela rezando com você; eu vi ela rezando com você. Sempre achei tua família boníssima; agora conheço.
Uns dias antes de embarcar você me escreveu a coisa mais bonita que você me disse nesse tempo todo. Que agora era muito grata a Deus por esse tempinho a mais que Ele te deu. Que pôde aprender mais sobre a tua vocação, crescer um pouco em santidade, conhecer melhor a fé. Que tinha conseguido se desapegar bastante do ter amizade com as pessoas — porque ter amigos é santificante, sim, mas você te ancorava tanto nas amizades que isso te impedia de amar mais a Cristo. Que o Senhor foi te formando, purificando as relações, colocando gente nova na tua vida. Que tinha sido um tempo de muita graça. Que, ainda assim, queria aproveitar mais com os teus irmãos — esse, você me disse, é o ponto que mais te dói de deixar.
E você fechou dizendo que as rosas mais belas têm espinhos juntos.
Eu não tenho nada pra acrescentar a isso.
Você entra amanhã em Trindade porque o de Brasília tentou quatro vezes e Deus sempre adiou. Seis a oito meses de experiência. Eu não sei o que vai acontecer. Se for pra ser, dentro você vai saber. Se não for, também. Esta aqui é a carta que eu te prometi em março, levada um pouco mais longe do que eu mesmo esperava. Sem pedido nenhum — só um, no fim.
Eu sei que Carmelo não apaga ninguém. Carmelitas escrevem carta, recebem visita em dia marcado, rezam por nome. Eu vou estar na tua oração — e é uma cobertura que pouca gente no mundo tem.
Eu vou rezar por você todo dia, Ceci. Se Ele quiser outra coisa pra gente, eu vou aprender a querer também. E pra fechar eu deixo a última linha do teu poema, porque ela é também a minha:
Para lá nos céus · Louvarmos grandemente. — do teu poema
apêndice
O poema
natal · 2024 · feito à mão
Ela escreveu o começo da história antes de mim. Aqui está inteiro, pra quem chegou até o fim.
Servindo ao Senhor
Você me apareceu
E na simplicidade
Tudo isso se deu
No santo Carmelo
A amizade brotou
E falando sobre véu
Ela se aflorou
Com os dias passando
Mais ela florescia
Deus sempre abençoando
Me enchendo de alegria
Quão indigna sou
De ter esse presente
Uma amizade tão santa
Que dure eternamente.
As bochechas cor de rosa
São mínimos detalhes
E puro coração
É que me faz amar-lhe
Que o bom Deus
Guarde isso para sempre
Para lá nos céus
Louvarmos grandemente
E nesses simples versos
Somente quero agradecer
A Deus por tudo
E especialmente por você.
Com carinho,
Cecília.
compromisso
Orações que vou rezar por você
Carmelita depende muito de oração de fora, Ceci. Aqui é o que eu me comprometo a levar por você, todo mês, todo ano, sem você ter que pedir. Pra você entrar sabendo.
- Todo dia Um Pai-Nosso e uma Ave Maria pela sua perseverança na experiência. Um "Carlinho" — a relíquia que você me deu anda comigo.
- Toda sexta-feira O Terço das Dores de Nossa Senhora. Pela tua cruz dentro. Pela minha, de fora.
- Todo dia 18 Uma missa. É o dia em que você me mandou aquela mensagem do véu. Começou aí; fica aí.
- Primeira sexta do mês Hora santa diante do Santíssimo. Na hora que você estiver em adoração, vou tentar estar também.
- 1 — 9 de outubro Novena de Santa Teresinha do Menino Jesus. Pela tua vocação, pela tua rosa, pelo teu nome novo.
- Todo 2 de maio Uma missa pelo aniversário da tua entrada. Todo ano, enquanto eu respirar.
- Todo 12 de outubro Aparecida. Lá foi onde eu me despedi de você com Deus. Volto lá todo ano com esse nome no peito.
Se em algum dia você sentir um Pai-Nosso bater no peito sem razão, pode ser meu. Me coloca na tua também, por favor.
para dentro
Nada te turbe
Santa Teresa de Jesus · Ávila
español
Nada te turbe,
nada te espante,
todo se pasa,
Dios no se muda.
La paciencia
todo lo alcanza;
quien a Dios tiene
nada le falta:
sólo Dios basta.
português
Nada te perturbe,
nada te espante,
tudo passa,
Deus não muda.
A paciência
tudo alcança.
Quem a Deus tem
nada lhe falta:
só Deus basta.
Leva contigo, Ceci. Só Deus basta.
explicit · Brasília · MMXXVI